Giro a chave na fechadura e abro a porta de um jeito meio mecânico. Nem reparo no enfeite de Natal pendurado na porta do apartamento. Meu pai, no entanto, não o deixa passar despercebido.
—Menina, tá doida?! Já é nove de janeiro! — ele grita, parado no capacho. — Vai pegar a Maldição dos Três Reis Magos.
Ele cruza minha porta ao mesmo tempo em que arranca o adorno dourado e branco de Papai Noel com a pontinha dos dedos, como se estivesse evitando uma contaminação.
—Já tirei todos os outros, só esqueci desse — me defendo, fechando a casa. — De onde é que você tirou essa história, hein?
—O quê? a Maldição dos Três Reis Magos? Ah, isso foi há alguns anos, quando a vizinha, aquela com a filha pequena, se mudou pro prédio. Você não lembra?
Meu pai joga o enfeite em cima da mesa de vidro e caminha até a poltrona cor de vinho. Ele só senta nessa poltrona. Estou ocupada terminando de arrumar minha bolsa para sairmos juntos, mas respondo que não, não lembro de vizinha nenhuma.
—Entrei no elevador para jogar o lixo e dei de cara com as duas. Quis puxar assunto com a menina, sabe? Mas ela não deu a menor bola. Parecia uma batata assada. A mãe disse, meio atravessado, que o nome da filha era Catarina. ‘Ah, Cata?!’, perguntei. Aí a mãe me fuzilou de vez. ‘Nina’, ela corrigiu. Nina? Onde já se viu? Nina não tem nada a ver com Catarina. Fiquei quietinho no canto do elevador até descer no térreo. Vai ‘cata’ coquinho.
Ele faz uma pausa para gargalhar. É a cara do meu pai chamar a filha da vizinha de “Cata”. Coloco a carteira no zíper interno da bolsa e pergunto:
—E o que isso tem a ver com os Três Reis Magos?
—Então — ele cruza os braços em cima da barriga. - Algumas semanas depois, entrei no elevador e lá estavam as duas de novo. Já cumprimentaram meio esquisito, né? Era seis de janeiro, e eu nem lembro porque comentei que precisava tirar os enfeites de Natal de casa…
—Porque você é completamente incapaz de ficar sem puxar assunto? - Interrompo, tirando a chave do carro do porta-chaves de parede.
—É!! — ele concorda no automático, sem dar conta da minha provocação. — Aí, sabe o que a mulher disse? Que já tinha tirado tudo! Aí NÃO! Não pode. Eu falei pra ela: tem que tirar os enfeites no dia seis. Seis. De. Janeiro. Não pode ser nem antes e nem depois. Ou vai sofrer a Maldição dos Três Reis Magos.
Uma nova pausa para a gargalhada. Coloco a alça da bolsa tiracolo sobre o ombro, pronta para sair, mas paro em frente à porta e observo meu pai rir. Estou boquiaberta.
—E o que ela falou?!
—Ah, ela ficou horrorizada — ele diz, levantando da poltrona. — Tapou o ouvido da filha e saiu correndo do elevador.
Abro a porta do apartamento e sua risada ecoa pelo corredor. Jesus amado, ainda bem que minha mãe não estava junto, ou iria passar essa vergonha gratuita.
—Tá, mas eu ainda não entendi. De onde raios você tirou essa história da Maldição? Ou você inventou? — Fecho a porta e estreito os olhos. — Tá na cara. Só pode ser invenção sua. Posso saber qual é essa terrível Maldição?
Entramos no elevador. Meu pai balança a cabeça e parece alarmado.
—O negócio é sério. Seríssimo — ele diz, arregalando os olhos azuis. — Quem sofre a Maldição só ganha meia e cueca de presente no Natal seguinte.
Uau. Arregalo os olhos também, em uma careta fingida de espanto. Nem a magia de mil Reis Magos seria capaz de desvendar os mecanismos complexos do cérebro do meu pai. Descemos até o subsolo, felizmente, sem a companhia de nenhum vizinho.

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Tô lascada! Só meia no Natal que vem. Hahahahahaha!
Novo medo debloqueado: a maldição dos reis magos kkkkk