Bem-vinda ao elevador
Pessoas bem-humoradas, um contista fantástico e meu livro no Dia das Crianças
— Já tem cadastro?
— Tenho.
— Fala o R.G., por favor.
Passo os números para o homem engravatado enquanto puxo a manga do casaco para conferir o relógio.
— Marina, pode passar na primeira catraca. Sala 905, nono andar.
O elevador está no térreo. Aperto o passo, mas a alça da bolsa enrosca nas barras da catraca. Penso que perdi a viagem quando uma mão enluvada irrompe da cabine, espalmada entre os sensores que forçam a abertura das portas metálicas.
— Vem, moça, segurei pra você! — uma voz animada chama lá de dentro. — Qual andar? Eu aperto.
— Nono — respondo, puxando o celular do bolso da calça. Dez horas em ponto. — Ia chegar atrasada para a consulta, mas graças a senhora não vou mais. Obrigada.
Ela sacode a mão amarela enluvada, como se dissesse “não é nada”, e se ocupa em borrifar um líquido esbranquiçado no espelho.
— Esse elevador é mal-educado. Até parece que não vê que tem gente chegando — diz.
Ding-dong! Quarto andar. Subindo.
O reflexo do seu rosto no espelho se ilumina.
— Aaaaaaah é vocêee! — ela cantarola, girando os pés na direção da porta.
Dou um passinho para dar espaço ao homem de colete, que traz uma pasta sanfonada entuxada embaixo do braço. Ele ergue o indicador do copo de café para apertar o botão do elevador.
— Vim te buscar, visse? Vambora que tem muito trabalho pra fazer — a senhora continua, agitando o paninho de flanela laranja para a mão do moço. — Esse café, aí, tá bom?
O homem ergue os ombros e faz uma careta com as pálpebras pesadas.
Ding-dong! Sexto andar. Subindo.
— Tá mais ou menos — fala arrastado.
— Vai lá na salinha depois, passei um café arretado. Tchau!
Ele responde com um aceno xoxo e some para o corredor. A senhora ajeita a blusa do uniforme e faz sinal para eu me aproximar. Curvo o tronco, curiosa.
— Os mal-humorados são meus preferidos — sussurra com a mão ao lado da boca, como um segredo.
Ding-dong! Nono andar. Descendo.
— Sou eu — digo. — Prazer em te conhecer, Dona... desculpe, qual o nome da senhora?
— Mara — responde. Os cantinhos dos seus olhos enrugam ainda mais quando sorri.
— Muito prazer, Dona Mara, e obrigada mais uma vez.
— Boa consulta, moça!
Uma jovem espera no corredor. Eu saio, ela entra.
— Olá, bem-vinda ao elevador — a voz da Dona Mara vai sumindo atrás das portas metálicas. — Qual andar você vai?
Marinada
🍿 Séries
The Good Place. Alguém aí já assistiu? Essa era uma série que estava na minha lista há mil anos, até que finalmente decidi dar uma chance para ela. Vou te dizer, é difícil uma série me pegar de surpresa, viu? É um plot twist atrás do outro. E risadas também. E algumas crises existenciais de vez em quando. Estou amando!
📚 Livros
Todos os contos — Júlio Cortázar. Lembra do curso de prompts que estou fazendo? Na última aula, trabalhamos um conto deste escritor argentino que me deixou de queixo caído e maluca para conhecer mais de suas obras. Esse autor doidão quebra com maestria a fronteira entre o real e o imaginário, chegando até a flertar com o surrealismo. Deixo meu destaque para os contos “Comportamento dos espelhos na ilha de Páscoa” e “Instruções para subir uma escada” (sério, olha esses títulos hahaha), que provam maravilhosamente bem um ponto fácil de esquecer: literatura não precisa ter função.
🌻 Aleatoriedades
Redescobri essa música e fiquei muito nostálgica. Agora vou ter que assistir De Repente é Amor mais uma vez.
Joguei uma lista de ingredientes que encontrei em casa e pedi para o ChatGPT fazer uma receita de bolo. Não é que deu certo? Sem glúten, sem leite, fofinho e maravilhoso.
A foto de hoje é um compilado do último sábado, na festa anual da Editora Labrador. Quem não conhece o processo de publicação nem imagina quantas mãos são necessárias para transformar um livro em realidade. Nessa foto estão algumas delas. A moça bonita do canto superior esquerdo é a minha editora, que também é assinante aqui da news (oiii Pamela ☺️). Só tenho a agradecer por todas as pessoas incríveis que me ajudaram a trazer e divulgar o Clay ao mundo.
Evento: Dia das Crianças
Clay
EBAAA! Dia 11/10 estarei de volta na Livraria Drummond! Eu e mais cinco autores de livros infantis fomos convidados para participar do evento de Dia das Crianças na livraria que vai rolar das 15 às 17h. Fica lá na Av. Paulista, no Conjunto Nacional. Vem ver o Clay! :D
Reality Show

Comecei a notar um padrão: toda vez que a escrita do livro travava, eu estava em algum ponto da história que trazia à tona o passado da protagonista. Eu não conseguia descobrir de jeito nenhum detalhes sobre a infância e a família dessa personagem.
Depois de passar vários dias revirando meus estudos antigos, consegui criar meu próprio guia para desvendar a história de fundo de um personagem. Ficou tão bom que vou até fazer curso na Hotmart. Mentira hahaha. Mas compartilho ele com os assinantes premium da Marinando.
O Reality Show é a seção onde eu mostro os estudos e processos criativos ao longo da escrita do meu primeiro romance.
Quer escrever uma ficção e não sabe por onde começar? Também estou aprendendo, vamos juntos! Tem 7 dias gratuitos para conhecer o que tem atrás desse paywall e 0 ressentimentos se o conteúdo não interessar. É só clicar aqui ou na imagem aqui embaixo.
Mais do Substack:
O Tim Burton que habita em mim saúda o Tim Burton que habita em você. Amei descobrir esse subgênero, “ficção estranha”, com a Lu Rodrigues.
Me identifiquei com esse causo curtinho da Karen Rito, quando ela conheceu uma das cidades que eu mais amo no mundo.
Para quem está saindo ou entrando na estação mais quente do ano, a Gabriele Duarte da Silva fez uma lista incrível com os 10 livros que a acompanharam durante o verão.
Comece pensando em desistir. É incrível como os textos do Luri Ribeiro me trazem perspectiva, clareando pensamentos bagunçados.
“Não tenho nada de interessante pra contar”. Tem certeza? Vem cá que a Gabrielle Albuquerque te ajuda a enxergar o (extra)ordinário.
Esse texto da Gabi Miranda que é 100% minha vibe: estratégias de alegria na rotina. A minha inclui observar passarinhos e ler de manhã cedinho.
Primeira vez que dou check na lista completa de indicações da Cynthia Teixeira. Isso prova que meu sonho secreto é sair dançando e cantando na rua como se minha vida fosse um musical.
Tem dias que essa lista fica meio longa, né? Não tenho culpa, tem muita gente boa no Substack. Vocês que lutem.
Até a próxima!
Marinando é o meu olhar traduzido em crônicas leves e descontraídas sobre a beleza do cotidiano.
Quinzenalmente, aos domingos, 9h.
Chegou pela primeira vez? Se inscreva para receber a próxima edição. :)









Quando meu pai me deu o livro "Inteligência Emocional" do Daniel Goleman, lá nos anos 90, lembro de ter revirado os olhos. Mesmo assim, li. Ok, li algumas partes. Mas o que me marcou foi o início, em que o autor conta sobre um motorista de ônibus que saudava todo mundo com um sorriso, uma brincadeira, alguma tirada alegre e como isso mudava o humor até mesmo dos mais carrancudos. É claro que pensei nisso quando li o texto sobre Dona Mara. Maravilhosa! Na minha vida, minha Dona Mara é Mariana, que está sempre ensolarando o dia. :)
É incrível como em alguns dias a nossa energia muda completamente ao encontrar uma dona Mara né? Considero um presente da vida ter contato com esse alto astral em situações aleatórias.
Sobre The Good Place, eu assisti alguns anos atrás e sinto saudades até hoje haha me acompanhou num momento bem difícil da minha vida (oi, residência) e é realmente muito divertida e cheia de plots.