Jornada Dupla
Miniconto, Jane Austen e filmes do Oscar
Calderón chegou em casa mais cedo. Tirou o distintivo, colocou a 38 em cima da mesa da sala e largou a farda na área de serviço. Vestiu uma camisa branca sobre o tronco corpulento e agarrou uma bermuda antiga, parando para esfregar a lombar. Aos quase 68 anos de idade, o ritmo intenso cobrava a sua conta. Mas o trabalho nunca acabava.
Pegou o celular e esperou o sargento atender.
— Alô, capitão.
— Oi, Dias. Preciso que você separe o relatório sobre o caso dos cinco quilos de cocaína.
— A apreensão da última sexta-feira?
Calderón colocou o celular no viva-voz e se dirigiu ao armário da cozinha. Abriu o estoque e fez alguns segundos de silêncio enquanto contava as latinhas de ração úmida. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez.
— Essa mesma.
— Ouvi rumores na delegacia de que esse caso pode estar relacionado ao cartel. Então é verdade, capitão?
Enquanto abria as latas, cinco gatinhos já apareciam ligeiros aos seus pés, ronronando e esfregando o rabo nas suas canelas.
— Espero que sim, Dias. Amanhã vou fazer o cabra falar. Se tudo der certo, essa será a melhor conexão que já fizemos nos últimos três anos.
— Excelente!
Calderón despejou a ração nos dez potinhos enfileirados na parede da cozinha, fazendo uma careta enquanto dobrava os joelhos. Fez um carinho na nuca da Pituca, que estava especialmente dengosa, roçando os pelos brancos e macios da cabeça em suas mãos.
Quase esqueceu que ainda estava no telefone.
— Hem hem — pigarreou, retomando a conversa. — Então mande o relatório para a minha casa, sim? Estou com um problema e precisei sair mais cedo.
— Está tudo bem, capitão?
—Nada que seja da sua importância, sargento. — A voz engrossou tanto que ele quase pôde ver Dias se encolhendo do outro lado da linha.
— Certo… perdoe a intromissão. Irei providenciar uma viatura com os papéis agora mesmo.
Calderón desligou sem se despedir e voltou a atenção para os gatinhos. Um, dois, três, quatro... nove?
Merda. Ele devia mesmo ter chegado mais cedo.
O capitão saiu para a sala e se pôs a procurar, sentindo as palmas meladas de suor. Soltou um suspiro longo ao encontrar Minduim atrás do sofá, meio encolhido, meio perdido. A bolinha de pelo rajada e cinzenta quase sumiu no meio das mãos de Calderón, ronronando ao ser colocada num abraço quente contra o peito do homem.
— Sua adaptação está sendo difícil, né, camaradinha? Mas não se preocupe. Papai está em casa.
Calderón levou Minduim até a cozinha e colocou-o em frente ao último pote de comida livre, deixando uma palmadinha suave em sua cabeça. O filhote estava com tanta fome que se jogou dentro da ração. Ele se sentou no chão da cozinha, estendendo uma perna de cada vez, e observou, satisfeito, seus dez gatinhos terminarem de jantar.
“Jornada Dupla” é um mini conto que eu publiquei aqui em junho de 2024, quando a newsletter tinha 40 inscritos. Além de ter sido parte de uma das primeiras edições da Marinando, esse texto também é uma das minhas primeiras tentativas de escrever ficção — gênero que tenho amado aprender e desenvolver.
Ele nasceu de um exercício de escrita criativa que propunha criar uma história a partir de “um policial com dez gatos”. Recentemente, visitei esse miniconto, fiz algumas alterações e fiquei animada para compartilhá-lo novamente. Espero que goste!
Me diz: como seria a sua versão de um policial com dez gatos? :)
Marinada
Livros
Orgulho e Preconceito - Jane Austen. Não tenho um bom histórico com esse livro. Já fiz umas três ou quatro tentativas de leitura e acabei abandonando todas elas. Como pode? Logo eu, tão fã de romances? Na-na-ni-na-não. Fiz um acordo comigo mesma: “Marina, este ano você há de terminar um livro da Jane Austen.” E assim está sendo. Estou lendo na paz, sem pressa e, ainda na metade do livro, fiz uma descoberta deliciosa. Jane Austen é engraçada. Ela é irônica e perspicaz. Por que ninguém me falou isso antes?
E uma dica: você sabia que tem dezenas de eBooks da Amazon Classics de graça? O próprio Orgulho e Preconceito está disponível pela incrível bagatela de 0,00. Oportunidade perfeita para quem quer ler clássicos e treinar inglês.
Filmes
Hamnet. Minhas amigas disseram: “É lindo! É perfeito! Você precisa assistir!”. Pois bem. Eu fui. E quis socar todas elas, pensando que aquilo só podia ser a coisa mais triste que eu já tinha assistido na vida. Mas aí, no final do filme, eu entendi. É a história da criação de Hamlet. É uma história sobre o significado e o poder da arte. É a fotografia intimista, o figurino narrativo e a atuação arrebatadora da Jessie Buckley. É lindo, perfeito e você precisa assistir.
Marty Supreme. Se Hamnet me fez chorar, Marty Supreme me fez rir. Mas não um riso gostoso — aquele riso de nervoso, sabe? Quando a situação é tão grave e absurda que a única coisa que nos resta é dar risada. Fazia tempo que um filme não me fazia ter raiva de um personagem desse jeito. Amei! (Curiosidade: a Cynthia Teixeira chama o Timothée Chalamet de “Timoteo Chalala”, e agora você também vai lembrar para sempre desse nome).
Aleatoriedades
Vocês estão aproveitando a semana do cinema? Vai até o dia 11/02, com ingressos a partir de 10 reais.
Essa semana passei pela Liberdade e fiz mais uma das minhas paradas obrigatórias na 89ºC Coffee. Minha dica é sentar no balcão com vista para a Rua dos Estudantes com um café coado e observar o movimento. Dessa vez vi turistas italianos, um vendedor de leque e duas drag queens.
Para essa edição, busquei fotos de gatinhos na minha galeria. Escolhi essa do Miles — ele está no Texas, mas bem que poderia ser um condado no sul da Inglaterra. Se você espremer os olhos vai ver a Elizabeth e o Mr. Darcy lá no fundo, atrás da árvore.
Reality Show
Que mané BBB! 2026 já começou com duas novas edições do reality mais legal desse país saindo do forno:
Sabia que a Pixar trabalhou por dois anos em uma animação que acabou indo pro lixo? Pois é. Na edição #10, conversamos sobre 5 sufocos criativos da Disney que me ajudam a lembrar que até mesmo projetos bem-sucedidos precisam enfrentar um bocado de perrengues antes de nascerem.
“Como sua leitura influencia sua escrita?” Na edição #11, tive que responder essa pergunta e passei por uma mini crise de identidade. Fui até a estante, separei alguns livros, pensei nas características que eu adoro e me perguntei se elas também existiam na minha escrita. Resultado: descobri algumas influências óbvias. Outras… me pegaram de surpresa.
Ah! Tem 7 dias gratuitos para conhecer o Reality Show e 0 ressentimentos se o conteúdo não te interessar. Te vejo lá?
Mais do Substack
A Andrea Nunes acabou de bater 1000 inscritos na sua newsletter e eu fiquei felizona! Na primeira edição deste ano você confere uma reflexão para olhar as metas de ano novo com outros olhos.
A May Santos está usando o Tarô para ajudar no processo de criação do seu livro e eu achei isso muito incrível!
A Gabrielle Albuquerque contou como um grupo de mulheres a ajudou a relembrar a própria escrita. Coisa linda!
Não te convenci sobre Hamnet? Cola na especialista: a Cynthia Teixeira já arriscou que esse deve ser um dos melhores filmes do ano.
E falando em filmes, a Gabi Miranda me deixou curiosa para assistir Primeiro Encontro.
Até a próxima!
Marinando é o meu olhar traduzido em crônicas leves e descontraídas sobre a beleza do cotidiano.
Quinzenalmente, aos domingos, 9h.
Chegou pela primeira vez? Se inscreva para receber a próxima edição. :)









Eu amooo esse conto! E amo a referência ao Calderón haha quanto aos filmes, já quero assistir
Eu comecei a ler o conto do seu Calderón (nao poderia esquecer dele) e pensei "ué, eu ja li esse conto", mas teve uma sensação muito legal de deja vu. Sobre Hamnet: pois é, amiga, sem palavras.