Faz cinco anos que minha mãe decidiu passar seus aniversários viajando com a família. Algumas viagens foram grandes — a surpresa em Barcelona, por exemplo, renderia um texto só para ela. Outras, foram bate-voltas para alguma cidade próxima, para manter a tradição. Foi o caso deste ano. Ela escolheu a cidade de São Roque e pediu que eu reservasse um lugar com um café da manhã bem legal.
Chegamos na pousada sete e tanto da noite. “Quem é a Eliane"? Perguntou o seu Maurício, levantando e estendendo a mão sobre o balcão da recepção para parabenizar minha mãe. “É um prazer receber vocês nesta data”. Enquanto preenchíamos a ficha de cadastro, surge Dona Cleni, nos oferecendo uma bandeja prateada com quatro pequenos cálices de suco de uva.
O casal administra a pousada há cinco anos, desde que reformaram a antiga casa de fazenda. “Aqui dentro era muito escuro. Mesmo ao meio-dia tinha que acender a luz” explicou Seu Maurício, durante um tour pela propriedade. “Quebramos a cabeça e acabamos decidindo aumentar o pé direito. De manhã vocês vão ver.” Ele apontou orgulhoso para as janelas de vidro no alto, próximas ao telhado. No cômodo principal da casa haviam sofás cheios de almofadas, uma lareira, um piano e um mezanino com um tabuleiro de xadrez e recortes amarelados de jornais de uma viagem em 1992, quando o casal foi noticiado por cruzar os Estados Unidos de carro em três meses.
Maurício nos levou para fora e acendeu a fogueira a gás. A proximidade de 60km da cidade de São Paulo não impediu que algumas estrelas despontassem acima de nós. Ele levantou sua lanterna para o céu sem nuvens e nos mostrou o brilho avermelhado de Marte, o Cruzeiro do Sul e Alpha Centauri. Conversamos sobre o mundo e sua aventura de carro pelas terras norte americanas até que o jantar estivesse pronto.
Dona Cleni percebeu antes mesmo de mim que o salmão não estava perfeitamente assado no centro, e se dispôs a levar o prato de volta para a cozinha na mesma hora. Cantamos parabéns com a cozinheira, os donos da pousada e uma vela cuidadosamente disposta em uma bola de sorvete com frutas fatiadas. No meu quarto e do Pedro, haviam dois chocolates em cima da cama. No dos meus pais, também havia o número 64 feito de margaridas amarelas, a idade da minha mãe. Fiquei admirada com a quantidade de toalhas bordadas no banheiro e me diverti com o laçarote verde em volta do papel higiênico.
Quando amanheceu, ficou claro que Seu Maurício não havia mentido. O sol entrava preguiçoso pelas janelas superiores, banhando o cômodo principal com um calor amarelado. Uma jovem na recepção nos aconselhou a conferir a escada da piscina depois do café da manhã, cheia de borboletas nessa época do ano.
A mesa já estava nos esperando, quatro pratos, xícaras brancas e um pão redondo recém-saído do forno. Quando o bule de café acabou, perguntamos para uma funcionária se havia mais. “Passo em um instante, cinco minutinhos e está pronto. Aqui fazemos tudo na hora, para estar sempre fresquinho”. Cantamos parabéns, dessa vez com toda a equipe da pousada e um bolo de limão com calda feito especialmente para nós.
Não estávamos vestindo roupas adequadas, mas topamos fazer a trilha até a pequena cachoeira mesmo assim. Paramos no meio do caminho para pedir informação ao empreiteiro todo sorrisos, paulistano de nascimento, sorocabano há mais de trinta anos, cuidando de uma obra no portão da entrada. “Só seguir à direita que em cinco minutos vocês chegam. Segunda-feira peguei minha marmita e levei pra comer lá. Tem uma energia especial”. Aquele lugar inteiro tinha.
Minha mãe tirou o tênis e molhou os pés no rio. Todas suas cinco viagens de aniversário acabaram envolvendo algum tipo de contato com a água, o que a fez criar esse ritual. Ela agradeceu por mais um ano de vida e fizemos um check out. Passamos cerca de dezesseis horas na pousada mais gentil do mundo, mas foi o suficiente para que eu voltasse para a cidade renovada. Um pouco pelo contato com a natureza e pela comida deliciosa. Muito por estar entre pessoas que trabalham com amor.
Marinada
Coisas legais dos últimos 15 dias
🍿 Filmes
A felicidade não se compra (1946). Esse clássico em preto e branco conta a história de um homem prestes a se suicidar, até que um anjo é enviado à Terra para fazê-lo mudar de ideia. Assisti em um domingo nublado, enrolada no cobertor, e foi perfeito. Pensa em um filme para aquecer o coração e restaurar a fé na humanidade. Como diz o título original em inglês: It’s a wonderful life. Disponível no Prime e Telecine.
📚 Livros
Loucos por livros. Se tem uma coisa que eu amo é intercalar leituras mais pesadas com as de entretenimento. Para mim, Emily Henry não tem erro. Ela é a rainha dos romances de verão (e olha que eu nem gosto de verão). Aqui, acompanhamos um romance entre um editor e uma agente literária através do recurso narrativo enemies to lovers. Não foi o meu livro favorito da autora, mas ele segue a mesma fórmula dos outros: é mamão com açúcar, cheio de clichês, tem cenas quentes, diálogos afiados, personagens muitíssimo bem construídos e te deixa com vontade de ler tudo em um dia só.
🌻 Aleatoriedades
As playlists do Snoopy são a minha trilha sonora da vez. Juro que elas vão agradar até quem não gosta de jazz.
O maior especialista em cookies que eu conheço (meu marido) descobriu essa loja no iFood e determinou ser o melhor cookie da cidade de São Paulo.
Esse é o vídeo mais ridículo que eu vi nos últimos tempos e que me deu dor de barriga de tanto rir.
A foto de hoje não podia ser de outro lugar, né? O Pedro me registrou lá atrás da piscina, lendo Emily Henry na Pousada Gardenian. Reparou na borboleta ali no canto superior? :)
CLAY
Da criação à publicação - parte 4
(confira a parte 3 clicando aqui)
Eu prometi contar nessa edição os motivos que me fizeram reescrever o Clay inteirinho momentos antes dele ir para a gráfica. Mas segura aí um instantinho.
É que na última quinta-feira os livros chegaram e eu segurei os exemplares pela primeira vez. Foi um momento tão emocionante que decidi dar um respiro nos detalhes da publicação e só curtir a energia da foto aí de cima: chorosa, de rímel borrado e transbordando de alegria.
Espera que tem mais! Dia 26/04 estarei na Livraria Drummond da Av. Paulista, em São Paulo, para a minha primeira *mini surto* TARDE DE AUTÓGRAFOS! Vou amar receber inscritos da newsletter e agradecer pessoalmente todo o apoio que vocês dão a essa escritora estreante. Vem! Vai ter brindes, abraços e comidinhas :)
CLAY está oficialmente lançado! Uhul! 🥳 A pré-venda foi um sucesso total, muito além de qualquer expectativa, e já temos uma segunda remessa a caminho da Amazon. Se você já adquiriu seu exemplar, ele deve ser despachado dentro dos próximos dias. E se você ainda não garantiu o seu, clica aqui!
Mais do Substack:
Peguei a indicação de A felicidade não se compra nessa lista de filmes que vão te inspirar a viver a vida, da samy 💌.
O Luri Ribeiro falou tudo o que a gente precisa saber para ter um relacionamento saudável com os números e os engajamentos dentro do Substack.
Minha psicóloga já me chamou de Brenezete, porque divulgo os livros da Brené Brown para todo mundo. É lógico que fiquei doida quando li essa edição da Gabi Miranda, que escreveu maravilhosamente bem sobre os dois temas tão essenciais para o nosso desenvolvimento: vergonha e vulnerabilidade.
E esse assunto tem tudo a ver com o último texto da Andrea Nunes, sobre validação. Eis a pergunta de milhões: por que raios a nossa própria validação não basta?
Até a próxima!
Marinando é o meu olhar traduzido em crônicas e mini contos leves e descontraídos sobre a beleza do cotidiano.
Quinzenalmente, aos domingos às 9h.
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Eu amei demais! Estava no meio da história e pensando "pelo amor de Deus, tomara que ela indique essa pousada no fim do texto" hahaha Obrigado por essa newsletter, é a primeira "Marinando" que li e curti demais!
Que história gostosa de ler! Me passou uma leveza, tal qual a luz entrando no janelão no teto!