Rodei por alguns dias com uma luz laranja no painel do carro até que, percebendo que ela não iria se apagar sozinha, decidi buscar ajuda. Perguntei ao meu pai onde ficavam os três irmãos de sua confiança, e ele me passou por WhatsApp o endereço e o contato “Akira/Kenji/Masato/Oficina”.
“Sábado às 7h, já deixei avisado.”
O Pedro reclamou do horário, mas eu fiz o maior drama e ele acabou se resignando a levar o carro até lá. Em troca, prometi um café fresquinho para quando voltasse. Ele entrou em casa bem na hora em que eu fechava a garrafa térmica:
— Você falou que tá engasgando na partida?
— Falei. Mas foi uma vergonha. Ele perguntou o ano, o motor, e eu não lembrava nada.
— Qual dos três te atendeu?
— Não sei.
— Como assim não sabe, Pedro?
— O seu pai não tem certeza de quem é quem, ué. — Ele ergueu os ombros enquanto se servia de uma canecona de café. – Mas, enquanto ele anotava o orçamento, comentou que a sua filha é engenheira e trabalha na CPTM.
Pisquei algumas vezes sem saber o que dizer sobre os homens da minha família.
— Ah! — disse de repente, interrompendo um gole de café. — Você viu a mensagem que eu te mandei?
— Não...
— Olha aí, olha aí.
Peguei o celular da bancada da cozinha e abri a nossa conversa. Era a foto de um carro batido que estava na oficina, com um punhado de fitas adesivas remendando o amassado. O destaque, porém, ficava para o imenso Coiote colado na lataria do carro, como se o próprio Papa-léguas tivesse causado o acidente. Era tudo maravilhoso, e eu caí na risada.
— Adivinha de quem é esse carro.
Franzi as sobrancelhas e o encarei, sentado na banqueta.
— Como assim? Eu conheço essa pessoa?
Ele riu e fez que sim com a cabeça.
— Eu também não entendi logo de cara. Aí o Akira-Kenji-Masato explicou que ela chegou lá por indicação do seu pai. Pensa bem: quem teria o desprendimento de colar um Coiote no carro amassado?
Olhei para a foto mais uma vez.
— Eu...? — respondi. Faria a mesma coisa sem pensar duas vezes.
— Exatamente. É uma pessoa igual a você.
Pensei nas “crianças” que moram na mesma região que eu: meu pai, minha mãe, minha prima. Isso era a cara da minha prima. Mais tarde eu mandaria uma mensagem e ela responderia que “uma coluna da garagem veio correndo em sua direção”. Ela tem quase quarenta anos a mais do que eu e é uma das minhas pessoas preferidas no mundo.
— Eu amei. Aposto que está fazendo o maior sucesso lá na oficina. — devolvi o celular na bancada e puxei uma banqueta para sentar ao seu lado. — E o que o Akira-Kenji-Masato falou da luz laranja no painel?
Pedro quase se engasgou com o café.
— A luz! Esqueci de avisar!
Marinada
Livros
Orgulho e Preconceito — Jane Austen. Continuo aqui. Mas juro que, dessa vez, não é nada contra o livro, não. Fiz questão de compartilhar essa atualização porque a Gabi Miranda já me perguntou como eu dou conta de compartilhar tanta dica nova quinzenalmente. Olha aí, não deu. Esse começo de ano tem sido atribulado e o meu hábito de leitura está andando a passos de tartaruga.
Filmes
O Dublê é um filme bobo, espalhafatoso, com cenas de ação bem no estilo “Looney Tunes” e que acabou de chegar ao catálogo da Netflix. Tem duas coisas que eu quero te contar: a primeira é que o diretor David Leitch é um ex-dublê e me deixou pensando em algumas coisas sobre essa profissão (poxa, bem que poderia existir uma categoria no Oscar de melhor dublê). A segunda é que tem o Ryan Gosling fazendo papel de galã pateta. Pode assistir.
Aleatoriedades
Não vou chorar sozinha com Forevergreen, o curta de animação que está concorrendo ao Oscar.
Estou viciada em patinação artística (e já planejei toda a coreografia dentro da minha cabeça para competir com o Pedro nas próximas Olimpíadas). A minha apresentação preferida dessa temporada foi esse espetáculo realizado pelo casal americano Madison Chock e Evan Bates.
Eu já era apaixonada pela música que eles dançaram: a versão de “Paint It, Black” por Ramin Djawadi, que é um dos meus compositores preferidos de trilhas sonoras. Essa versão foi feita especialmente para a cena icônica do Rodrigo Santoro na primeira temporada de Westworld, que infelizmente acabou sendo cancelada. (Alguém me explica qual é a dificuldade da HBO em entregar um final decente para as séries?)
A foto e a crônica de hoje são uma carta de amor às pessoas da minha família que nunca cresceram completamente. Elas me lembram todos os dias de que podemos encontrar uma dose de leveza mesmo nas situações mais desafiadoras. Obrigada por me ensinarem tanto. ♥️
Reality Show
Essa sou eu embarcando para o meu RETIRO DE ESCRITA, em caixa alta mesmo, porque essa só pode ser uma das coisas mais legais que eu já escrevi na vida.
Vou passar uma semana em Trancoso na companhia da minha professora de escrita, focando integralmente e exclusivamente nos meus trabalhos de ficção. Por isso, enquanto eu estiver passando FPS 60+ e fritando os dedinhos sobre o teclado do computador, minhas newsletters terão um breve salto de uma semana na sua programação:
O próximo Reality chega no dia 09/03
E a próxima Marinando no dia 15/03
É lógico que vou compartilhar como foi essa experiência com vocês! E se você quer acompanhar mais de perto os bastidores da minha trajetória como escritora, é só chegar: no Reality Show eu compartilho os estudos, processos criativos, aprendizados, medos, erros e acertos desta autora estreante. Tem sete dias gratuitos para conhecer o Reality e zero ressentimentos se o conteúdo não te interessar. ☺️
Clay
Acabei de descobrir que o Clay está com uma super promoção de 65% de desconto na Amazon! Oportunidade im-per-dí-vel para agarrar mais um exemplar, presentear alguém ou conhecer o meu livro infantil pela primeira vez. Eu não tenho controle sobre as promoções que rolam na Amazon, então corre, porque não sei até quando vai durar! 😱

Mais do Substack
Fiquei tão revoltada com o trailer de “O Morro Dos Ventos Uivantes” que me recusei a ver o filme. A guerreira Ju Almeida fez esse favor para nós e ainda explicou muitíssimo bem por que a adaptação da Margot Robbie e do Jacob Elordi não faz jus à obra prima escrita pela Emily Brontë.
A atuação do Timóteo Chalala em Marty Supreme impressionou até a Cynthia Teixeira. Minha aposta para o Oscar de melhor ator vai para ele.
Acho muito lindo quem escolhe uma palavra para guiar o ano! Aqui no Substack acompanho duas pessoas que têm esse hábito: para a Cynira Altenfelder, a palavra desse ano é sonhos. E para a Gabi Miranda, é amor. Fala se não é inspirador?
A Andrea Nunes compartilhou seu “diário estatístico de uma pessoa comum”, e eu ri de nervoso.
A Gabi Fagundes explica por que o trabalho humano vai ser cada vez mais valorizado. Concordo com ela.
Até a próxima
Marinando é a minha newsletter de crônicas leves e descontraídas sobre a beleza do cotidiano.
Quinzenalmente, aos domingos, 9h.
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A pessoa desenhou o coiote com fita adesiva? Sensacional! kkkkkkk
Miga, se você ta empacada com Orgulho e Preconceito, tenta ouvir o audiobook, parece que está super bem produzido!
Até a sua dica antiga parece nova porque vc repagina. rs
Nem sempre conseguimos fazer tudo do jeito que gostaríamos. Mas eu ainda acho que vc se supera.
beijos